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EVENTOS

O tinto do Jacinto

Em meados de 1980, ano de “colheita” deste vosso cicerone, foi também o exato momento em que iniciou a minha história no vinho. Um legado familiar iniciado pelo meu avô materno José Maria que poucos anos antes “empava” uma vinha no vale de avanteira em local fértil, que goza de boa exposição solar e bastante irrigado. O meu avô era agricultor de subsistência e assim acontecia também com a vinha, que existia para gáudio festivo da familia. Na verdade o meu avô era vinicultor por vocação e moleiro de profissão.

Desde muito novo que me recordo de o acompanhar entre vinhas, campos agrícolas e pinheiros, cuidando da terra e de tudo aquilo que carinhosamente ela nos dá. Nessa altura atrapalhava mais do que ajudava – talvez ainda hoje seja um pouco assim, mas alguém tem que fazer a reportagem fotográfica.

A vindima, era o ponto alto anual de reunião familiar, o momento em que tios, primos e netos trabalhavam em uníssono em prol dos novos néctares. O dia começava de madrugada com a apanha dos cachos que seguiam de carroça para o lagar da adega situada na Aldeia de Santa Teresa, seguia-se o animado almoço de toda a equipa. De tarde, os homens ocupariam os seus respetivos postos na adega, enquanto uns se dedicavam à pisa a pé, outros como era o meu caso, tratavam do enchimento das pipas (na altura ainda de madeira) que tinham sido cuidadosamente lavadas na semana anterior, num ritmado movimento para que a água fizesse essa lavagem.

Esse era o momento em que o aroma do adocicado mosto se espalhava pela pequena, fresca e sombria adega situada na continuidade da casa e um pouco por toda a eira, a minha primeira memória olfativa.

Só há uma dezena de anos o trabalho manual foi substituído por maquinaria e a madeira pelo inox, o único momento em que a tradição se mantém é na colheita dos bagos, as vicissitudes da vida levaram alguns dos intervenientes a parirem, como é o caso do meu avô e da minha avó, Elvira de seu nome, que fez questão de manter esta tradição, assim como tantas outras, até que lhe foi possível.

Com a partida da minha avó Elvira e até mesmo um pouco antes, o meu pai Jacinto, de seu nome, passou a ser o zelador principal da vinha, dando-lhe a atenção necessária em cada um dos momentos do seu ciclo , o conhecimento empirico passado de geração em geração foi-se especializando mais um pouco pela continuidade de informação que conseguimos encontrar hoje.

Mas o método mantém-se original, um tanto ao quanto semelhante ao de produção do vinho medieval de Ourém, que se carateriza na vinha por videiras conduzidas em taça, com poda a talão e em tudo muito semelhantes às vinhas da Idade Média, com predominância das castas Fernão Pires para mosto branco e Trincadeira para mosto tinto.

Após a vindima as uvas são transportadas em diferentes recipientes, para que na adega sejam primeiro às uvas brancas a serem prensadas no lagar e os mostos obtidos envasilhados logo após esmagamento, em vasilhas (outrora) de madeira e de modo a não preencher a sua capacidade total, onde inicia a sua fermentação o afamado conceito de vinificação em bica aberta.

Posteriormente, as uvas tintas são desengaçadas com as cirandas e fazem, isoladamente, a fermentação com curtimenta manual em dornas, no minimo duas vezes por dia – o Jacinto – faz o recalque com um rodo de madeira, de modo a obter mosto tinto.

Praticamente no final de ambas as fermentações, o mosto tinto não prensado e com as respetivas películas, é envasilhado directamente na vasilha que já contém o mosto branco, de modo a completar o seu enchimento e a terminarem as fermentações em conjunto.

Ainda que a sua composição seja feito maioritariamente de uvas brancas muito maduras este vinho é “tinto”, “guloso” e “forte”, normalmente com amoras de framboesa e morango, de extrema complexidade, macios no beber, untuosos e que preenchem a boca.

Este vinho, também designado por “palhete” ou “clarete” acompanha a rica gastronomia da região, ou os pratos caseiro que cá por casa a Jacinta minha mãe com prazer e afinco nos prepara. O bacalhau em tiborna com batata a murro é a grande especialidade que casa na perfeição com este tinto.

Há meia dúzia de anos, após as partilhas patrimoniais, a velha vinha passou a ser herança do Jacinto – e da Jacinta – a adega passou da casa da avó para a “casa de pedra” situada na zona do solhal, limite do concelho de Ourém, onde o Nabão começa a ganhar expressão e onde fica situada a casa construída pelos meus pais há 40 anos atrás, a casa de pedra era um espaço que existia como apoio aos campos agrícolas.

O meu pai, o Jacinto, assumiu assim os cuidados na vinha, herdando as rotinas e o tinto é agora um vinho com aromas mais complexos, temperado com outros vinhos, para ganhar mais consistência e estrutura.

Existe ainda algum espaço para evolução, mas nos últimos anos tem tido um grande potencial de evolução. O tinto do Jacinto está cada vez melhor e hoje será motivo de brindes a este caminho, à vida e ao vinho, que no fundo é a minha história, a história das minhas origens no vinho, que me fazem ser quem sou, mas é acima de tudo a história do tinto que agora é do Jacinto. Feliz dia do Pai!

Alguma das informações referentes ao Medieval de Ourém foram adaptadas do site da Quinta de Montalto que continua a manter a receita original dos vinhos medievais de Ourém.

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